Herdamos um único planeta. Mas hoje a Terra é um legado ameaçado, e a própria espécie humana está em risco.

O custo de nossa guerra ao planeta pode ser comparável ao custo de uma guerra mundial.

Existe, ademais, o risco de uma guerra de verdade, em vista da crescente escassez de combustíveis fósseis e recursos naturais e dos entre 150 milhões e 200 milhões de eco-refugiados previstos pelos estudos de futuro.

Esses problemas, entretanto, podem ser vistos mais própriamente como sintomas. O verdadeiro problema é o crescimento material em um mundo finito, identificado já em 1972 em um relatório feito ao Clube de Roma, “Os Limites do Crescimento”.

Em 1972, porém, a humanidade ainda estava dentro de seus limites; hoje, ela já os extrapolou. Esse diagnóstico é confirmado com os dadosque publicamos sobre o rastro ecológico deixado pela espécie humana.

A humanidade ainda pode ser salva? Sim, se conseguirmos combinar crescimento com desenvolvimento sustentável, em lugar de enxergar os dois como contraditórios. Mas como isso pode ser feito? Precisaremos de mais conhecimento, mais contenção, menos matéria, mais concretude e mais, muito mais, ética e política.

Mais conhecimento: muitas pessoas vêem a tecnociência como inimiga. A doença, contudo, contém sua própria cura. Não conseguiremos salvar o planeta e sua hóspede, a espécie humana, a não ser com a construção de sociedades do conhecimento baseadas em educação, pesquisa e visão do futuro. O trabalho da Unesco de compilar um conhecimento global baseado no meio ambiente e no desenvolvimento sustentável vem de décadas, e seus programas cientificos globais para os oceanos, as geociências e a biosfera são reconhecidos como recursos de valor singular.

Mais contenção: devemos inventar novos modos de consumo que desperdicem menos e sejam mais eficazes. Pois, se os padrões atuais de consumo da América do Norte fossem estendidos ao mundo todo, seriam necessários três ou quatro planetas.

Menos matéria: teremos que “desmaterializar” a economia. É provável que seja impossível interromper o crescimento. Teremos, portanto, que reduzir o consumo de recursos naturais e matérias-primas. Esse deslocamento da economia em direção ao material já começou, com a revolução que substitui átomos por bits, que é fundamental para a ascensão das novas tecnologias e das sociedades do conhecimento. A desmaterialização do crescimento poderia, até mesmo favorecer o desenvolvimento do Sul, se o Norte se comprometesse a desmaterializar um pouco mais que o Sul por aproximademente 50 anos.

Mas a maior transformação de nossas sociedades se dará no campo das atitudes. Como poderemos desmaterializar a produção se continuarmos a ser materialistas? Como poderemos reduzir nosso consumo se nosso consumidor interior devora nosso lado cidadão? A resposta está na educação para o desenvolvimento sustentável.

Mais concretude: serão necessários projetos concretos realistas para cobrir o abismo entre a utopia e a tirania do curto prazo. Tome-se o caso da biodiversiodade. Para salvaguardar as 34 zonas ecológicas prioritárias, que cobrem apenas 2,3% da Terra, mas contém 50% das espécies conhecidas de plantas vasculares e 42% dos mamíferos, aves, répties e anfíbios, o custo é avaliado em cerca de US$ 50 bilhões, menos de 0,1% do PIB global.

Um contrato natural: tivemos um contrato social, que interliga as pessoas; agora precisamos nos conectar com a natureza. Como já protegemos espécies ameaçadas e parques naturais, devemos pouco a pouco ir reconhecendo que a natureza encarna direitos legítimos. A visão de futuro será uma condição prévia imprescíndivel à verdadeira democracia do futuro.

A ética do futuro fornecerá o vínculo entre crescimento e desenvolvimento sustentável.

Koichiro Matsura, Economista e Diplomata Japônes, é Diretor Geral da Unesco.    

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