Archive for the ‘Novela’ Category

Um homem com o rosto escondido por uma máscara negra, munido de uma arma com mira telescópica está deitado atrás de uma árvore, olhando para uma estrada dezenas de metros a sua frente, ele está esperando seu alvo que vai passar em um carro.

De repente, pela estradinha de chão batido que passa ao lado das árvores e termina na estrada, aparece um garoto numa cadeira de rodas.

Ao chegar ao lado da árvore o jovem vê uma lata de refrigerante no chão, e ao tentar pegá-la acaba caindo da cadeira.

O atirador fica desconcertado, mas resolve ajudar o garoto, retira sua máscara e vai ao encontro do rapaz.

- Mas que raios, logo agora me aparece esse garoto!!!

Ele carrega o garoto, e o coloca de volta na cadeira.

- Olá, muito obrigado, o que você está fazendo aqui?

- Eu?Eu, bem… eu estou esperando por alguém.

- Bom, só se o senhor marcou com essa pessoa, porque quase ninguém passa por aqui.

- Você está passando.

- Mas eu moro logo ali atrás numa casinha de madeira, no lote que papai me deixou.

- Você mora com sua mãe?

- Não, eu não tenho mais ninguém nesse mundo, só meu cãozinho Farofa, que é meu companheirinho já a 3 anos.

- Cadê sua família?

- Tenho não moço, meus pais morreram quando eu tinha 12 anos, desde então vivo só.

- Sei, olha é melhor você ir andando eu estou esperando alguém.

- Sei, o Sr. Já falou isso.Quem é que o Sr. Está esperando?

- Olha jovem, vai andando vai.

- Desculpe, é que eu fico muito sozinho e quase não tenho com quem falar. O sr. tem família?

- Não, eu também não tenho mais ninguém.

- Porque?

- Porque?Bem, minha esposa e meu filho morreram num acidente de carro a 5 anos atrás, e eu fiquei só.

- O que é aquilo ali?

O jovem aponta na direção do rifle que está encostado na arvore.

- É um rifle, uma arma de longo alcance.

- O Sr.vai caçar?

- De certo modo sim, olha não é melhor você ir embora?

- O que vai caçar?Aqui não tem caça não!!!

- Vou caçar um homem, um homem muito mau.

- Vai matar um homem?!!!Mas isso é errado!!!

- Não, não é não, só farei a justiça que os homens da lei me negaram.

- Há, esse homem foi responsável pela morte de sua família.

- Rapaz, você é esperto heim!

- Moço, eu sou só aleijado, não sou burro!!!

- Escute aqui, como você faz para viver?

- Bom, no meu lote eu planto coisas que são fáceis de nascerem, tipo alface, cenoura, couve,cebolinha, etc, e crio galinhas para ter ovos, coisas que eu posso fazer na cadeira de rodas ou me arrastando no solo.Duas vezes por semana venho até a estrada e fico pedindo esmola para comprar um pão, etc, vou vivendo.

- E escola?

- Há, não, eu só estudei até os 12 anos, depois que meus pais morreram eu não pude mais ir, é longe,o que é aquilo?

Aponta para uma caixa.

- É um hot dog, você quer?Já almoçou hoje?

- Comi salada de alface com tomate.O que é um hot dog?

- É um pão com molho e salsicha, é muito bom.

- Hum, deve ser bom mesmo, mas e o senhor, o que vai comer?

- Eu estou sem fome, toma.

O garoto retira a salsicha e guarda na caixa, e come o pão com molho.

- Ué, mas você retirou a salsicha!!!

- Ela eu vou levar para o meu cãozinho Farofa.Como vai fazer a sua “justiça” aqui de longe?

- Está certo, se eu não contar já vi que você não vai me dar sossego.Eu tenho um tiro certeiro, um só tiro certeiro.

- Como pode ter tanta certeza?O seu alvo vai passar a pé na estrada?

- Não, dentro de um carro, a uns 80 km por hora.

- Há, e o Sr. acha mesmo que vai acertar com um único tiro? Fácil não é?!!!

- Olha garoto… mas como é seu nome mesmo, eu não sei.

- Claro que não sabe, eu não falei!!!É Mateus, e o seu?

- Alexandre, meu nome é Alexandre.Sei que vou acertar o tiro, porque na verdade ele é um tiro mágico.

- Alexandre, você tem certeza que está bem da cabeça?

- Vou lhe contar uma história.

- Oba, adoro histórias.

- Logo depois que minha família morreu, no acidente provocado por quem eu vou matar daqui a pouco…

Rapaz interrompendo…

- Porque tem de matar?Se ele era culpado porque não foi preso?

- Ele estava completamente embriagado e perdeu o controle do carro batendo de frente no meu carro, minha esposa ficou dias no hospital, mas meu filhinho de 5 anos morreu na hora, eu infelizmente sobrevivi.

- Não diga isso, você tinha de passar pela provação de perder os seus, e continuar aqui na terra!

Alexandre ficou olhando pensativo para o garoto.

- Fica quieto e escuta, o cara estava bêbado, a policia rodoviária constatou,mas ele é um senador da República e não ficou um dia sequer na cadeia.

Bem como eu ia dizendo, após a morte deles eu fui para uma casa que tenho na praia, queria tentar me acalmar.Um dia caminhando bem cedinho pela areia da praia deserta, eu topei com uma lâmpada a óleo, já ouviu falar?

- Igual a lâmpada do Aladim?

- Isso, isso mesmo, vc conhece a história?

- Meu pai contava sempre para eu dormir, só falta agora você falar que esfregou a lâmpada e saiu um gênio de dentro dela hahaha.

- Foi isso mesmo, foi desse jeito mesmo, acredite se quizer, ok?

- Calma, você tem de concordar comigo que é complicado de se acreditar!!!

- Quer ou não ouvir a história?

- Claro, claro, continue.

- O gênio apareceu e me falou que eu tinha direito a três pedidos.

- A três pedidos?

- Isso, a três pedidos.Na hora fiquei perplexo, e a primeira coisa que veio a minha cabeça foi pedir minha esposa e meu filho de volta..Mas o gênio falou…

- Sinto, mas isso não dá para ser feito, mas presta atenção, você pode mudar cada pedido uma vez, só uma única vez antes dele acontecer, logo você pode refazer seu primeiro pedido.

Pensei rápido e pedi então :

- Dinheiro, quero muito dinheiro nas minhas contas, para nunca mais ter de trabalhar.

- OK, assim está feito, pode efetuar o segundo pedido.

- Hum, quero viver sem nenhuma doença até o dia em que eu concretizar meu terceiro pedido, depois posso até morrer.

- OK, assim será, não terás doença alguma até concretizar teu terceiro pedido.Qual é ele, qual o terceiro pedido?

- Quero disparar um tiro certeiro, um só tiro de um rifle, que a bala saia dele com o caminho traçado direto para explodir a cabeça do meu alvo.

- OK, assim será.No dia em que você mirar nesse alvo e apertar o gatilho, nada vai desviar o trajeto dessa poderosa bala.

ADEUS.

- Então é isso, por isso você tem tanta certeza que vai matar o senador.

O rapaz fica um pouco pensativo e conclui…Ele não terá chance alguma.

- Minha esposa e filho também não tiveram.

- É triste, é muito triste.

- Pois é, igual a sua vida, preso numa cadeira de rodas, sem poder ir a escola, sem jogar bola, sem namorar, isso é triste.

- Está vendo, e nem por isso eu saio por aí matando pessoas.

- Claro, você é só um jovem e não tem minhas possibilidades infalíveis.

- É… não tenho dinheiro, não tenho saúde e nem tenho a bala certeira, mas eu tenho paz no coração, e meu cãozinho Farofa.

- Escute aqui, contei a minha história, e a sua, qual é sua história?

- Quando eu fiz 12 anos, papai e mamãe me levaram na cidade para assistir o filme GHOST   Do outro lado da vida, na saída do cinema quando a gente ia até a rodoviária passamos por um local aonde bandidos estavam saindo de uma grande loja que acabavam de assaltar, ficamos bem no meio de um tiroteio com a policia, minha mãe levou um tiro na cabeça e morreu na hora, papai ficou desesperado,  me abraçou com força me encostando na parede tentando me cobrir com seu corpo, um outro tiro entrou pelas costas dele e acertou seu coração, e eu, bem… eu fiquei sozinho no mundo.Eu, minha cadeira de rodas, e depois de alguns anos meu cãozinho Farofa.

O atirador estava pensativo, olhando para o vazio.

A seguir foi até sua mochila, desmontou o rifle com calma, guardou na mochila, colocou nas costas olhou para o jovem, e apenas sorriu.

- Adeus Mateus, seja feliz.

- Mas espera, vai embora?Mas e seu terceiro pedido?

- Mateus, lembra que o gênio falou que eu podia mudar o meu pedido antes dele se realizar?Pois é, acabei de mudar meu terceiro pedido.

Lentamente Alexandre vira as costas e vai saindo da vista do menino.

- Que coisa estranha, meus pés estão formigando …

O garoto se levanta da cadeira de rodas e de repente começa a andar, dá umas voltas, um pulo, grita de alegria…

E sai correndo em direção a sua casa…

- Farofa, Farofa, estou andando, estou andando…

FIM

Não temos certeza de nada em nossas vidas, apenas precisamos saber que todos os caminhos…

todos os caminhos levam a Jesus Cristo.

Eduardo Belmonte

08/12/2009

ATIRADOR

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Esta é uma peça de teatro que escrevi para os jovens da Comunidade Esperança, da qual faço parte, e será apresentada no dia 05 de dezembro, como encerramento das atividades do ano.

Ela é uma peça musicada, sem qualquer diálogo, aqui ela está em forma de uma novelinha.

Espero que gostem…

PARTIDAS E CHEGADAS

 Uma história de perdas, de provas, e de fé.

 À cadelinha Tutty 

Desculpem-me por dedicar esta história a uma cadelinha. Tenho um bom motivo: essa cadelinha foi a melhor amiguinha que tive, essa cadelinha era capaz de compreender todos os meus anseios, até mesmo os meus temores. Tenho ainda um outro motivo: essa cadelinha não está mais comigo, e até hoje sinto a sua falta.

Eduardo Belmonte

Parte 01

 

Estamos no ano de 1970, quando muitos jovens jogavam suas mochilas nas costas, e saíam pelo mundo afora em busca de liberdade.

Estela chega em casa após o trabalho, deposita a bolsa num canto e  senta-se numa cadeira. Fica olhando os pôsteres na parede de seu quarto, cada um sobre um país distante: Austrália, Groenlândia, Nova Zelândia, Alasca; e seus pensamentos voam pelas terras distantes que ela há muito decidiu conhecer. Há tempos vinha juntando dinheiro para comprar a passagem só de ida, e finalmente seu sonho estava se realizando.

Martha entra no quarto e olha para os pôsteres, sempre se perguntava quando a filha iria desistir daquele sonho tresloucado, ou quando iria partir de vez ao encontro dele, aumentando seus temores e apertando seu coração. Ela puxa uma cadeira e, passando as mãos sobre os cabelos da filha volta, a repetir frases tão conhecidas já entre ambas…:

- Filha, de novo “viajando”, quando vai desistir dessa idéia maluca de colocar uma mochila nas costas e sair pelo mundo?

A garota se levanta e procura por palavras para tentar confortar a mãe de sua iminente aventura…:

- Mamãe, já estou com 27 anos, creio que já passou da hora de seguir meu caminho. Por favor, tente entender, minha vontade é muito maior do que eu. Não fique triste, por favor, não torne as coisas mais difíceis para nós.  

Nesse momento chegam Bruno e Rafael, ambos trajando camisas de times de futebol, o pai com a do Palmeiras, e o filho com a do Botafogo, este com uma bola de futebol na mão, e ficam olhando a cena sem entenderem o que estava se passando.

Martha vai até Bruno e quase em desespero pede ao marido…:

- Bruno, sua filha está me deixando preocupada, está falando como se finalmente estivesse partindo.

- Martha, quantas vezes já falamos sobre isso, ela está com quase 28 anos, o que vamos fazer, amarrá-la no pé da cama?

Mais uma troca de olhares entre pai e mãe e Estela vem até eles com uma passagem aérea nas mãos.

Martha em prantos abraça a filha, senta-se numa cadeira, a filha senta-se no chão e abraça a mãe.

Ambas ficam ali abraçadas, Martha chora copiosamente e enquanto Estela soluça baixinho por algum tempo, Martha fica acariciando os cabelos da jovem.

Depois a jovem se levanta e começa a arrumar as mochilas, suas roupas já estavam separadas apenas aguardando pelo tão sonhado momento.

O trajeto de sua casa até o aeroporto é relativamente longo, e ela não quer chegar atrasada para o vôo.

De sua gaveta da cômoda retira um punhado de dólares e um passaporte e coloca em sua bolsa de mão.

Vai ao banheiro tomar banho enquanto Martha ainda tenta argumentar com Bruno sobre a partida da filha.

Ao terminar de se arrumar Estela despede-se dos pais e do irmão e vai saindo devagar. De repente vira-se e entrega uma bandana que estava usando para a mãe. Os pais ficam abraçados com a mãe chorando no ombro do marido.

Rafael fica em pé, apenas olhando enquanto a irmã entra no táxi e acena um adeus com as mãos.

 

PARTE 02

 

1972 – Dois anos já se passaram, e após duas cartas vindas da Austrália, a família nunca mais teve noticias de sua filha.

Agora outra aflição atingia Martha e Bruno.

Rafael, seu filho de oito anos está muito doente. Portador de uma rara doença, eles esperam apenas o resultado de seus últimos exames para saber suas reais condições de sobrevivência.

O jovem está internado, e seus pais aguardam a chegada da médica, em seu quarto no hospital.

Uma enfermeira está constantemente ao lado da cama do menino, monitorando uma série de aparelhos que estão ligados ao jovem.

Depois de uma longa espera a médica adentra o recinto com vários papéis na mão.

Cumprimenta os pais e a seguir vai até o menino, conversa com a enfermeira e retorna para a mesa onde estão os pais.

- Meus queridos amigos, infelizmente não tenho boas notícias. Apesar de todo o avanço de nossa medicina, ainda não temos a cura para a doença do Rafael, eu sinto muitíssimo.

Os pais se entreolham e Martha começa a chorar apoiada no ombro do marido, que pergunta para a doutora:

- Mas doutora, existe alguma chance lá fora, em qualquer outro país, estamos dispostos a vender nossa casa para custear a cura.

- Meu amigo, se houvesse essa possibilidade eu já teria lhes comunicado, preciso ser realista, não posso enganar vocês nem lhes iludir com falsas esperanças. Rafael está morrendo.

Após esse terrível comunicado, apenas sete dias depois o jovem Rafael desencarnou em seu leito no hospital.

 

Parte 03

 

Martha e Bruno não conseguiram de forma alguma encontrar a filha Estela para lhe contar sobre o irmão, e numa tarde fria e chuvosa de julho, Rafael foi enterrado pelos pais e alguns poucos familiares e amigos.

Ao retornarem para casa, agora sozinhos, Bruno colocou toda sua ira para fora, parou em frente a um entalhe de Jesus em madeira escura, na parede da sala e questionou aos berros…

- E você, onde você estava? Por que deixou isso acontecer? Primeiro minha filha vai embora, agora você me leva Rafael!!! O que mais você quer de mim?

Martha desesperada tentava acalmar em vão o marido.

Bruno se desvencilhou dos braços da esposa, e num ímpeto de fúria jogou tudo que estava sobre a mesa da sala para o chão, em seguida chutou com força uma lixeirinha de plástico que ficava próxima a mesa, espalhando todo seu conteúdo pelo chão da sala.

Com muita dificuldade Martha consegue arrastar Bruno até o sofá e tenta ler uma passagem do Evangelho para ele.

Com o marido deitado em seu colo, Martha com as lágrimas escorrendo pelo seu rosto vai lendo o Evangelho, que passava sem sentido algum pelos ouvidos de Bruno.

Martha encontrou apoio na doutrina espírita de Alan Kardec, mas Bruno entrou em parafuso, e passou a questionar Jesus e tudo o mais.

A vida do casal iria se transformar definitivamente numa grande provação.

 

PARTE 04

 

1975 – Tarde da noite Bruno volta para casa do seu serviço, com sua pasta na mão esquerda, os cabelos desalinhados, o terno todo desarrumado, e na mão direita uma garrafa de whisky pela metade. Com muita dificuldade consegue fechar a porta, e tropeçando nos próprios pés para defronte da imagem entalhada de Jesus, olha para ele e lhe oferece um gole de sua garrafa…:

- Não quer? Tudo bem, eu quero…

Joga a pasta sobre a mesa, bebe mais um grande gole e cai pesadamente sobre o sofá.

Fica ali por um tempo, perdido em pensamentos, a seguir vai até uma gaveta sob a mesa da sala e de lá retira dois objetos, voltando até o sofá.

Nas suas mãos estão a bandana de Estela, e a camisa do Botafogo de Rafael.

Leva a bandana ao nariz, como se fosse possível sentir o perfume da filha após cinco anos, e chora copiosamente enxugando as lágrimas com a camisa de Rafael.

Com muita dificuldade, ainda carregando a garrafa, vai até seu quarto e, de roupa e tudo, desaba na cama ao lado da esposa, que dormia sem perceber a chegada do marido.

Toma mais um gole e deixa a garrafa cair no chão para, em seguida, dormir profundamente.

Em determinada hora da madrugada, uma luz a princípio fraca e trêmula, começa a tomar conta do quarto do casal.

A luz vai se tornando cada vez mais forte e assume um tom púrpura, bem ao lado de Bruno.

A intensidade da luz vai se tornando um pouco mais fraca e de repente uma forma humana vai se tornando visível.

Agora temos a forma perfeitamente visível, e a luz é sua aura, que lhe envolve completamente.  

Ali bem ao lado do desacordado Bruno está Jesus, sentado num banquinho que estava próximo a cama, Cristo em todo o seu esplendor está bem ao seu lado, e com as mãos espalmadas sobre sua cabeça faz com que Bruno acorde num sobressalto…:

- Que? Como?

Assustadíssimo, Bruno senta na cama com os pés apoiados no chão, olhando para a imagem do Cristo bem ali a sua frente…:

- Filho, fique em paz, sou Eu, nada temas. Chegou a hora de você voltar à vida. Tudo tem seu tempo certo, e nada nesta vida é por acaso. Confie em mim, como sempre você confiava.

Com essas palavras ressoando estranhamente em seus ouvidos, Bruno não conseguia sequer balbuciar uma frase. Cristo coloca sua mão direita no coração de Bruno e lhe direciona novamente ao seu leito.

Imediatamente Bruno volta a dormir como uma pedra.  

Jesus se levanta do banquinho e com as mãos espalmadas fica um longo tempo observando o casal.

A luz começa a se intensificar novamente, a imagem do Cristo desaparece dando lugar a mesma luz púrpura e trêmula.

A seguir num piscar de olhos o quarto volta a ficar escuro, e o casal continua dormindo pesadamente.  

Amanhece na casa de Martha e de Bruno, e estranhamente pela primeira vez desde que Estela partiu e Rafael morreu, o casal está completamente em paz, numa paz que eles nunca haviam sentido antes.

PARTE 05

 

1976 – Bruno e Martha vivem tranqüilos sob a luz do Evangelho, ambos trabalham na casa espírita de seu bairro e a vida segue seu curso.

Já se passou um ano desde que Cristo apareceu em sonho para Bruno (em sonho?), estamos na época do Natal, e Martha prepara a montagem da tradicional árvore.

Árvore que tantas vezes ela montou em companhia de sua querida filha Estela, com o pequeno Rafael em volta querendo mexer em todas as caixas de enfeites, ou então brincando com os bichinhos do presépio. Mesmo assim ela se sente bem, ela não sabe por que, mas nesse Natal ela está particularmente feliz.

A seguir Bruno chega do seu trabalho, abre a porta sorrindo e logo na entrada retira os sapatos e empurra-os para o canto da sala, sendo repreendido com um balançar de cabeça negativo de Martha. Ele sorri, pois faz aquilo exatamente para brincar com a esposa. Depois vai até ela e lhe dá um beijo. 

Livra-se do paletó e desafoga o nó da gravata.

Em seguida vai até a gaveta da mesa e retira o Evangelho, senta-se no sofá põe-se a ler.

Enquanto Martha vai montando a árvore, Bruno vai lendo e um filme passa por sua cabeça, deposita o Evangelho no sofá e olha para a esposa montando a árvore.

Fica ali perdido em pensamentos, o que estará passando por sua cabeça?

Ela vê o marido com olhar distante e tenta adivinhar no que será que ele está pensando.

Bruno nunca contou de seu sonho para Martha, naquele momento ele está exatamente relembrando do sonho, ele se recorda exatamente de tudo, e de todas as palavras que Cristo lhe dissera.

Nesse momento batem na porta, trazendo o casal de volta a realidade.

Eles se entreolham, como que perguntando um ao outro quem poderia ser.

Martha deposita um enfeite na mesa e sai para atender a porta quando a mesma se abre.

Estela ao lado de um forte rapaz de sua idade, ele carregado de malas, e ela carregando no colo um bebê de 10 meses, vestindo a camisa do Botafogo.

Naquela noite, duas semanas antes do Natal, Martha e Bruno tiveram suas vidas de volta de vez.

FIM

O ser humano, o ser humano pode perder tudo, absolutamente tudo em sua vida…

Ele só não pode perder uma coisa, uma única coisa…

A sua FÉ !

teatro

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